VILA DE CANO - ALTO ALENTEJO

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HISTÓRIA DA VILA DE CANO

Vila de Cano

"Vestusta, entre os lugares vetustos é a histórica Vila de Cano"

Entre todos os velhos povoados deste pequeno recanto da nossa terra, é um local obrigatório de passagem para todos os povos em migração, sobressai, pelas provas da sua antiguidade e pela sua lógica existência de sempre, a velha Vila de Cano.
Velha de fundação a perder-se nas incertezas do tempo, existência certa em eras para nós remotíssimas.
Terra esta que existiria talvez há muito quando os Romanos, senhores de grande poder e sedentos de o aumentar, espalharam-se pelo Mundo e viraram os seus olhos para esta parte risonha do Ocidente, afeiçoada pela mão rude das muitas tribos autóctones. Estes mal se apoderaram do litoral, o seu número e o seu desejo de tudo possuir levou-os a todos os cantos, muitos locais teriam sido de pura passagem em busca de outros que oferecessem base para o seu colonato. Terras virentes úberes de solo e águas eram o seu alvo, o seu objectivo.
Com edificações ou sem elas, uma vez fixados, os romanos tentavam adaptar e adaptar-se. Aí, ou construíam desde o primeiro muro ou acrescentavam ao existente o necessário à sua exigência de povo civilizado. Estas construções e o que nelas ficou de despojos são a prova histórica da sua existência em qualquer local.
A região rica de águas e lavada de ares em que se situa a Vila de Cano é por demais formosa per matura para ser desprezada por quem tanto apreço dava a locais semelhantes. E aqui está a lógica existência de sempre da Vila de Cano. Como prova disto, "perto da actual Rua da Ferroa, foi descoberto um cemitério romano, ora os cemitérios que só falam de morte, são afinal prova irrefutável de vida, pena que essa ironia dessa vida, só chegasse até nós o que fala de morte. A incúria de muitos séculos roubou-nos outras certidões, outros atestados da Urbe Romana que o Cano já foi.
Esses monumentos estão, uns perdidos, outros na mão de particulares, dispersos, inúteis para a sua missão histórica - em lugar próprio seriam relíquias desta venerável antiguidade e fontes de estudo.
Se o cemitério acima referindo prova a fixação dos romano, demostra o grau de importância de civilização atingida nesse lugar
A Vila de Cano herdou o seu nome de Cannum, local passagem de águas abundantes. A etimologia com as suas leis fez a mão de obra dada com o tempo, não arruinou construções, não destruiu monumentos, mas fez transformações absolutamente necessárias às gargantas menos afeiçoadas ao suave geito latino dos povos que se misturaram com os descendentes dos primeiros senhores.
O Cannum latino, torna-se para os pósteros, mercê da apócope do «m» do acusativo, vezeira do "sermo-cotidianus", e duma síncope, com aspectos de simplificação fenómeno usual na passagem do idioma latino para o romanço, na palavra Cano. E é esta designação que todos hoje repetimos, sem ligar ao seu significado nada de patronímico, isto é, nenhuma ideia de relação com os seus "patres", toponímico, isto é, nenhuma ideia que se relacione com a fisionomia especial do lugar que se baptizou.
Hordas e hordas de árabes vêm desde o Calpe até aos mais recônditos lugares de toda a Península Ibérica. E o fenómeno que séculos antes se verificara com os romanos verificou-se então com os árabes.
Também a estes o Cano seduziu com a sua virência, como prova de existência em como os Árabes (mouros), habitaram nesta zona, assim repare-se nos nome que delimitam o termo de Cano: Acorgo e Almadafe, Horta do Mouro, Ponte do Mouro, e entre outros nomes.
Dos fulgores da civilização romana, pela fogosidade da civilização árabe, o Cano, chegou à dignidade Cristã. Determinar esta data na civilização cristã, é impossível devido pela confusão da reconquista.
Cano aparece com a dignidade de vila cristã já pela história adiante. Ignora-se como teria sido a vida desta terra nos primeiros tempos da nossa nacionalidade. Quando os documentos dão referência dela como uma grande importância para a ilustre Ordem de Avis. Os habitantes desta aparecem como pergaminhos de valentia e lealdade, pois é ai que D. Nuno de Álvares Pereira vai buscar o cerne do exercito para a Batalha dos Atoleiros. Se importante não fosse esta Vila, o papel dos seus filhos nas guerras da Independência bastava para lhe dar lugar de primeira ordem entre as nobres Vilas fieis ao Mestre de Avis e à ideia de nacionalidade que ele representava. A sua lealdade não era chão propício para traidores: D. Vasco Peres de Camões, do partido de D João de Castela, é ai submetido por D. Nuno.
De progresso em progresso, ganho com esses alicerces, recebe em 1 de Novembro de 1512 o seu foral das mãos de D. Manuel que quis ainda significar-lhe o seu apreço especial, doando-a com uma albergaria.
A Vila de Cano, agora já concelho de nobres tradições, trabalha para si ao serviço da grei e entre outras iniciativas conta-se a transformação da Albergaria em Misericórdia, pelo seu povo.
Desde 1 de Novembro de 1512, dia de entrega do seu foral pelas régias mãos do Venturoso até ao triste dia de 23 de Dezembro de 1826, decorrem mais de 3 séculos de vida progressiva, próspera e independente para o concelho de Cano. Na mesma data e pela mesma Lei muitos outros concelhos foram extintos. É esta a só atenuante da injusta, prejudicial situação que deste então foi imposta à nobre, vetusta e histórica Vila de Cano.
O Cano firmando concelho desde D. Manuel.
"Digo e afirmo que desde D. Manuel pois o seu início é de localização muito incerta em data, já certamente o teria sido de facto até logo nos primeiros anos da nossa Monarquia. Mesmo sem fontes históricas podemos fazer essa afirmação. Basta que nos auxiliemos da filologia, ciência a que a história pede muitas vezes emprestando".

Afirmação feita por, João Falcato

A respeito do termo de Cano existem ainda hoje restos duma ermida no sítio da Represa (Cano), e no mesmo lugar têm sido encontrados vestígios de outras construções. A invocação dessa ermida era a de S. Guilherme, dum tosco S. Guilherme de madeira, incrivelmente medieval, arrecadado hoje em casa da Família Rebocho Pais. Este nome próprio de Guilherme é de origem germânica, como aliás todos os começados por g, até o da própria Guimarães. E se aqui há nomes de origem germânica é porque houve germânicos e sabemos muito bem que se fixaram por todo o Portugal em grande número nos primeiros tempos da nacionalidade. Parece fácil concluir daqui que já nesse tempo o Cano seria povoação de interesse. Portanto D. Manuel lhe dá um foral, as coisas deviam ter-se no campo da reforma e substituição. De facto, não tendo sido a obra administrativa de D. Manuel senão de reforma, substituição de formulas caídas em desuso, abolição de privilégios, numa palavra centralização do poder, não se teria aberto uma excepção para o Cano, o foral recebido deste Monarca teria sido afinal a reforma dum foral, não podemos averiguar se dado por qualquer Rei da primeira dinastia.

Todos os forais recebiam uma representação tangível. Foral e Pelourinho que se guardava nos Paços do Concelho e de cuja matéria os homens bons tomavam conhecimento directo de leitura ou outiva. O Pelourinho era a tradução pública do documento e o local de dignificação para esse documento. Aí se pagavam todos os desrespeitos ao mesmo. Amarrados ao Pelourinho aprendiam pela ignomínia o respeito ás clausulas do foral aqueles que tinham tentado ignorá-lo.

O Pelourinho de Cano - conta uma gravura antiga o seguinte:
"Sobre pedra tosca restos de primitivo pelourinho, a elegante coluna Manuelina sobrepujada da esfera armilar das descobertas, resultando o todo mais obra de arte do cenário próprio para expiração. A euforia em que se vivia tinha extensões no rendilhado marítimo das obras de arte".
Do Pelourinho de Cano, fragmentos duma ideia de autonomia, encontra-se estranhamente disperso. Restos desses símbolos podem-se ver no cemitério de Sousel. Outros fragmentos estão perdidos no recato de propriedade de algumas casas particulares.
A inclemência dos tempos e a sanha dos homens têm roubado ao Cano tudo o que lhe tem podido roubar. As suas antigas regalias, a sua importância de terra histórica e por fim a única reminiscência da importância passada, o seu Pelourinho. Pouco lhe foi deixado.

In P.A.P. Valores Hiastórico-Culturais da Vila de Cano

David Eliseu

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