Caipira
QUEM SOU E O QUE PRETENDO
Os versos que eu vou escrever
Quem os ler fica sabendo
P'ra depois então dizer
Quem eu sou e o que pretendo.
Quem eu fui e sou na vida,
Vou dizê-lo tristemente;
Fui e sou folha caída,
Pisada por certa gente.
Cavo terra camarada
Em redor da minha aldeia;
Os beijos da minha amada
Por vezes servem de ceia.
Plantei vinha, semeei trigo,
P'ra tantos uma riqueza;
Mas eu vivi, meu amigo,
Sem pão, sem vinho na mesa!
Todo aquele que fizer guerra,
Pode crer que o odeio;
Vai ensanguentar a terra
Que tanto amo e semeio.
À terra ensanguentada
Digo não, e não e não!
Quero a terra cultivada
Para todos termos pão!
Não pretendo ser traidor
E ser cruel também não;
Um coração sem amor
Não pode ser coração.
Quero deixar de ver quem passa
A vida a ser um mendigo,
Nem quero ver na desgraça
O meu maior inimigo.
Toda a vida trabalhei
A chuva e ao calor,
Mesmo assim não desbotei,
Conservo a mesma cor.
Nem morrer me sobressalta,
Embora pensem que não;
Digo sem medo, em voz alta:
- Sou português, sou cristão!
(Poema 2) o TENTILHÃO
I
Vi poisado num raminho
Numa árvore toda em flor,
Um pequeno passarinho,
Cantando com muito amor.
II
Era suave e meiguinha
A sua linda canção;
A pequena avezinha
Era um lindo tentilhão.
III
E veio-me logo ao sentido
Se as penas do tentilhão,
Teriam elas caído
Do meu pobre coração.
IV
Pensei mal, ave querida!
Através do meu pensar,
Pensei que a tua vida
Fosse comer e cantar.
v
Eu não tinha reparado,
Ali num outro raminho,
Estava mesmo ao seu lado
A companheira no ninho.
VI
A cuidar dos seus filhinhos,
Grande espanto foi o meu,
Quando lhe vi dar beijinhos,
Como a minha mãe me deu.
VII
Tanto trabalho e canseira
Teve aquele passarinho,
Com a sua companheira,
P'ra fazer ali o ninho.
VIII
Vamos todos trabalhar,
Povo da minha Nação!
Para podermos cantar
Como aquele tentilhão. [topo]