VILA DE CANO - ALTO ALENTEJO

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Poetas Populares da Vila de Cano

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Aurélio Buinho

A MORTE

MOTE

TU NÃO TENS DÓ DE NINGUÉM  
TORTURAS SEVERAMENTE  
TAL É O PODER QUE TENS  
METES MEDO A TODA A GENTE  

I
Caminhas a hora morta
Teus passos ninguém os sente
Se encontras alguém doente
Começas a rondar a porta
Com uma frieza que corta
O melhor que a vida tem
Matando aqui e além
P'ra todos és infiel
Vingativa e cruel
TU NÃO TENS DÓ DE NINGUÉM.

II
Quando vens, vens à vontade
Ninguém te manda entrar
Tu entras em qualquer lar
Destruindo a felicidade
Tu não tens moralidade
Vais matando lentamente
Outras vezes de repente
Seja adulto ou criança
Fazes a tua vingança
TORTURAS SEVERAMENTE.

III
Tu és o terror da Terra
S'alguém te pede prudência
Tu não lhe dás importância
Matas aos milhares na guerra
Com o poder que em ti encerra
Depressa vais, depressa vens
P'ra matar não te entreténs
Tu só não entras no Céu
Mas o Mundo é todo teu
TAL É O PODER QUE TENS.

IV
Vais a qualquer reunião
Onde está quem manda mais
P'ra ti são todos iguais
Pregas-lhe o mesmo sermão
Não tens dó nem compaixão
Se encontras um fraco ente
Para ti é indiferente
Não obedeces a qualquer lei
És «inturro» que não se vê (1)
METES MEDO A TODA A GENTE.

ANOTAÇÕES:

(1) inturro - estorvo, embaraço.

(Poema 2) APRENDE A LER, NÃO DESISTAS

MOTE
APRENDE A LER, NÃO DESISTAS
EMPENHA-TE BEM A FUNDO
FICARÁS COM OUTRAS VISTAS
SOBRE A VIDA E SOBRE O MUNDO

I
Saber ler, por que eu entendo
Faz parte da nossa lida
E um pedaço da vida
Que a gente está vivendo
Só tu estás adormecendo
E preciso que resistas
E o saber que tu conquistas
Com a tua habilidade
Mesmo na maioridade
APRENDE A LER, NÃO DESISTAS.

II
Talvez não queiras dar «créto» (1)
E p'ra ti seja indiferente
Mas é menos inteligente
Um homem analfabeto
Por isso aqui te alerto
Sai desse sono profundo
Sai do estado «moribundo»
Toma uma decisão
Aproveita a ocasião
EMPENHA-TE BEM A FUNDO.

III
Já começaste a estudar
Já estás a ser pontual
Já vais indo menos mal
É preciso continuar
Só assim podes lançar
Teu nome nas grandes listas
Nos jornais e nas revistas
No futuro e no presente
Abre o livro à tua frente
FICARÁS COM OUTRAS VISTAS.

IV
Agora já sabes ler
Os sacrifícios foram teus
Dá então graças a Deus
Cumpriste o teu dever Continua e hás-de ser
Pessoa de grande estudo
De qualquer parte oriundo
E com boas intenções Homem de largas visões
SOBRE A VIDA E SOBRE O MUNDO.

ANOTAÇÕES:
(1) Créto - crédito.

A MINHA VIDA DE PASTOR

MOTE
A CHUVA ESTAVA IMINENTE
NESSA NOITE DE FRIO E VENTO
PASSO A VIDA ALEGREMENTE
MESMO AO RIGOR DO TEMPO

I
O gado deu-me sinal
A correr e a brincar
Parecia adivinhar
Que vinha aí o temporal
Passei a noite tão mal
Com frio e a tremer o dente
Eu conto a toda a gente
Estas minhas aflições
Faziam relâmpagos e trovões
A CHUVA ESTAVA IMINENTE.

II
Eu já mal via o chão
O gadinho já não andava
«Chovia água se Deus mandava».
Aumentava a escuridão
Nessa triste situação
Eu perdi-me de momento
Concentrei meu pensamento
Bem perto vi o meu fim
Tive até pena de mim
NESSA NOITE DE FRIO E VENTO.

III
Ao romper da bela aurora
Eu rezo a Deus Divino
Depois ponho o gado a pino
E lá vou p'los campos fora
Caminhando a qualquer hora
Para mim é indiferente
O futuro e o presente
Ambos p'ra mim são iguais
Lá no meio dos sobreirais
PASSO A VIDA ALEGREMENTE.

IV
Esta vida de pastor
É uma vida penante
Um sofrimento constante
Cheia de martírio e de dor
Sem carinho e sem amor
Apenas com sofrimento
Mesmo assim não me lamento
Vivo até com alegria
Guardo gado de noite e dia
MESMO AO RIGOR DO TEMPO.

MAS TUDO PODE ACONTECER!...
Eu cá tenho a minha fé
Mas tudo pode acontecer
Ali pode um homem morrer
Sem ninguém lhe chegar ao pé
Mas cada um é como é
E eu cá sou conforme sou
Coragem não me faltou
Sempre tenho sido assim Pois quando Deus se lembrar de mim
Sabe bem onde estou. [topo]

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