VILA DE CANO - ALTO ALENTEJO

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Poetas Populares da Vila de Cano

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Jaime Velez "Manta Branca"

POEMA QUE O POETA DEDICOU À MORTE DO PAI

MOTE

NA AULA ONDE EU ESTUDEI  
JÁ OS ESTUDOS DERAM FIM  
JÁ NÃO HÁ QUEM LIÇÕES DÊ  
SÓ CHEGARAM PARA MIM  

I
Saí logo oficial
Nem cheguei a ser sargento,
Tomei conta do regimento
Dos cantores de Portugal.
Até podia ser marechal
Na carreira que tomei.
Não pode outro, nem por lei,
Ter exame igual ao meu.
Já se fechou o liceu
NA AULA ONDE EU ESTUDEI.

II
Só eu as podia dar
E já não eram naturais.
O meu mestre sabia mais,
Eu não me posso comparar,
Deixou-me no seu lugar,
Não por ser igual a mim,
Eu tenho-me por mais ruim
E é menos o meu valor.
Morreu o meu professor,
JÁ OS ESTUDOS DERAM FIM.

III
Da mesma sanguinidade
A todos deixou herança
Com o dote resta a esperança
Desde que haja habilidade.
Ensinou-me de vontade,
Eu de vontade escutei,
'Inda hoje por aí se vê
Escritas que ele deixou
Já o meu mestre findou,
JÁ NÃO HÁ QUEM LIÇÕES DÊ.

IV
Tinham melhores condições
Esses antigos liceus (1)
Como a escrita de João De Deus
E os Lusíadas de Camões
Esses modernos padrões
Caem sem dar motim,
Mas, até o «Pelourim» (2)
Da maior altura cai.
As teorias do meu pai
SÓ CHEGARAM PARA MIM.

ANOTAÇÕES:
(1) Antigos liceus - Pessoas mais idosas que ensinavam a arte de versejar aos mais novos.
(2) Pelourim - Pelourinho.

(Poema 2) CONVITE AOS CANTADORES PARA UM DESPIQUE

MOTE

JÁ VI OS CANTORES EM GREVE
VOU ENTRAR EM REVOLUÇÃO
VAMOS VER SE ALGUÉM SE ATREVE
A LEVAR O MEU PENDÃO

I
Tenho a força preparada
P'rós de fora, p'rós da terra.
A minha bandeira de guerra
Hoje aqui vai ser içada;
Eu quero-a respeitada,
Respeitada como deve,
Para que nenhum a leve,
Já tenho trinta aviões,
Trago por fora espiões.
JÁ VI OS CANTORES EM GREVE.

II
Para um guerreiro como eu sou
Só algum que seja vário;
Este meu parlamentário
Toda a tropa respeitou
Quem comigo batalhou
Ficou mal na sua acção;
O meu antigo canhão
Já muitos tem derrotado,
Hoje eu venho preparado,
VOU ENTRAR EM REVOLUÇÃO.

III
Venho eu fazer barreira
Aos mais valentes guerreiros;
Serão estes os primeiros
Que deles faço uma esteira.
Em toda a Nação inteira,
Onde o meu nome se escreve
É claro como a neve
Tudo o que eu esclarecer
E p'ró levar do meu poder
VAMOS VER SE ALGUÉM SE ATREVE.

IV
Vejo diferentes partidos
Mandei colocar as vedetas,
Para quando haja suspeitas
Estarem todos reunidos.
Os que não estão convencidos
Dentro desta reunião
Também apanham lição
Mesmo que me peçam paz
Porque nenhum é capaz
DE LEVAR O MEU PENDÃO.

(Poema 3) DESABAFO

MOTE
NÃO VEJO SENÃO CANALHA
DE BANQUETE P'RA BANQUETE
QUEM PRODUZ E QUEM TRABALHA
COME AÇORDAS SEM AZÊTE.

I
Ainda o que mais me admira
E penso vezes a miúdo (1)
Dizem que o Sol nasce p'ra tudo
Mas eu digo que é mentira.
Se o pobrezinho conspira
O burguês com ele ralha
Até diz que o põe à calha (2)
Nem à porta o pode ver.
A não trabalhar e só comer
NÃO VEJO SENÃO CANALHA.

II
Quem passa a vida arrastado,
Por se ver alegre um dia,
Logo diz a burguesia
Que é muito mal governado,
Que é um grande relaxado,
Que anda só no «bote e dête» (3)
Antes que o pobrezinho respeite
Tratam-no sempre ao desdém.
E vê-se andar quem muito tem
DE BANQUETE P'RA BANQUETE.

III
É um viver tão diferente!
Só o rico tem valor
E o pobre trabalhador
Vai morrendo lentamente.
A fraqueza o põe doente
E a miséria o atrapalha
Leva no peito a medalha
Que ganhou à chuva e ao vento.
E morre à falta de alimento
QUEM PRODUZ E QUEM TRABALHA.

IV
Feliz de quem é patrão
E pobre de quem é criado,
Que até dão por mal empregado
O poucochinho que lhe dão.
Quem semeia e colhe o pão,
Não tem bem onde se deite,
Só tem quem o assujeite (4)
Para que toda a vida chore.
E em paga do seu suor
COME AÇORDAS SEM AZÊTE.

ANOTAÇÕES:
(1) A miúdo - Amiúde.
(2) À calha-Na rua.
(3) No bote e dête - Nos copos.
(4) Assujeite - Subjugue.

Este poema foi dito de improviso, na herdade da Defesa, quando Eduardo Magalhães convidou o Poeta para divertir um banquete a que assistiam altas individualidades.

(Poema 4) POEMA DEDICADO AO TEMPO QUE ES1 NA CADEIA DE AVIS

MOTE
NÃO HÁ VIDA MAIS BONITA
QUE Ê A VIDA DA CADEIA
SABE A GENTE ONDE TRANSITA
SOL E CHUVA NÃO RECEIA.

I
Nunca tinha experimentado
Agora já experimentei
Obrigaram-me por lei
Não que eu estivesse culpado
Nunca fui tão bem guardado
Nem tive tanta visita
Há quem a ache esquisita
Mas eu gostei de lá estar
Comer e não trabalhar
NÃO HÁ VIDA MAIS BONITA.

II
Já tinham a conta feita
Aqueles que queriam mama (1)
Quem tinha dinheiro seu lhe chama
De mim não viram nem cheta (2)
Vestiram a capa preta
Fazenda coisa mais feia
Não ganharam com a teia
Com a sentença que lá foi dada
Hoje não me enleva mais nada
QUE É A VIDA DA CADEIA.

III
Tinha casa para morar
Tinha cama para dormir
E até para de lá sair
Uma luz pare me alumiar
De noite para me rondar
Às ordens de um qualquer guita (3)
Até para me fazerem a escrita
Tinha criados por minha conta
Vê-se tudo de ponta a ponta
SABE A GENTE ONDE TRANSITA.

IV
Até de um prédio rasteiro
Tinha um guarda-portão
Para depois fechar então
Tinha às ordens um carcereiro
Tinha um belo aguadeiro
Tinha sempre a bilha cheia
Quem castigos não nomeia
Cá fora passa mais mal
E lá livra-se do temporal
SOL E CHUVA NÃO RECEIA.

ANOTAÇÕES:
(1) aqueles que queriam mama - advogados.
(2) cheta - dinheiro.
(3) guita - guarda.
[topo]

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